Aspectos Bioquímicos, Metabólicos, Moleculares e Suplementação

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Aspectos Bioquímicos, Metabólicos, Moleculares e Suplementação

Mensagem  cupertino em Qua Abr 13, 2011 5:36 pm

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RESUMO

A glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma e no tecido
muscular. Nutricionalmente é classificada como um aminoácido não
essencial, uma vez que pode ser sintetizada pelo organismo a partir de
outros aminoácidos. A glutamina está envolvida em diferentes funções,
tais como a proliferação e desenvolvimento de células, o balanço
acidobásico, o transporte da amônia entre os tecidos, a doação de
esqueletos de carbono para a gliconeogênese, a participação no sistema
antioxidante e outras. Por meio de técnicas de biologia molecular,
estudos demonstram que a glutamina pode também influenciar diversas vias
de sinalização celular, em especial a expressão de proteínas de choque
térmico (HSPs). As HSPs contribuem para a manutenção da homeostasia da
célula na presença de agentes estressores, tais como as espécies
reativas de oxigênio (ERO). Em situações de elevado catabolismo
muscular, como após exercícios físicos intensos e prolongados, a
concentração de glutamina pode tornar-se reduzida. A menor
disponibilidade desse aminoácido pode diminuir a resistência da célula a
lesões, levando a processos de apoptose celular. Por essas razões, a
suplementação com L-glutamina, tanto na forma livre, quanto como
dipeptídeo, tem sido investigada. Alguns aspectos bioquímicos,
metabólicos e mecanismos moleculares da glutamina, bem como os efeitos
de sua suplementação, são abordados no presente trabalho.

INTRODUÇÃO

Em 1873, Hlasiwetz e Habermann foram os primeiros a considerar a
glutamina como sendo uma molécula com propriedades biologicamente
importantes. Posteriormente, novas observações levaram os pesquisadores a
pensar que a amônia encontrada em hidrolisados protéicos poderia ser o
resultado da liberação de glutamina, bem como de asparagina (1,2). Cerca
de 60 anos depois, Krebs, em 1935, demonstrou que células possuem a
capacidade de sintetizar ou degradar glutamina (2). Trabalhos com
diferentes tipos de células, tais como linfócitos, macrófagos,
enterócitos, células HeLa, mostraram que tanto a proliferação celular
pode ser aumentada, quanto a manutenção das estruturas e funções
celulares pode ser mantida, em meios de cultura contendo glutamina (3).

Em todas as células, a glutamina pode ceder átomos de nitrogênio para a
síntese de purinas, pirimidinas e aminoaçúcares (4). Resultados de
pesquisas evidenciam a importância da glutamina para um grande número de
vias metabólicas e tais mecanismos, dependentes de glutamina, passaram a
ser denominados como vias glutaminolíticas. O desenvolvimento de novas
técnicas científicas possibilitou a observação de diversos efeitos e
mecanismos moleculares em que a glutamina está envolvida (3). Trabalhos
demonstram também efeitos agudos e crônicos da suplementação com
glutamina em situações catabólicas, tais como câncer, HIV, dengues,
sepse, cirurgias, exercícios físicos intensos, entre outros. A síntese,
metabolismo, função e suplementação da glutamina são alguns aspectos
apresentados nesta revisão.

Considerações metabólicas e bioquímicas da glutamina

A glutamina (C5H10N2O3) é um L-α-aminoácido, com peso molecular de
aproximadamente 146,15kda e pode ser sintetizada por todos os tecidos do
organismo. Fazem parte de sua composição química nas seguintes
quantidades: carbono (41,09%), oxigênio (32,84%), nitrogênio (19,17%) e
hidrogênio (6,90%) (1,5). É classificada de acordo com seu grupamento R
como não carregada, mas é polar, o que significa uma característica mais
hidrofílica, sendo facilmente hidrolisada por ácidos ou bases (5). Como
o organismo pode sintetizar glutamina, esta é considerada como um
aminoácido dispensável ou não essencial (6).

A classificação da glutamina como um aminoácido não essencial,
entretanto, tem sido questionada, pois em situações críticas, tais como
cirurgias, traumas e exercícios físicos exaustivos, a síntese de
glutamina não supre a demanda exigida pelo organismo (7,Cool. A glutamina é
o aminoácido livre mais abundante no plasma e no tecido muscular, sendo
também encontrada em concentrações relativamente elevadas em outros
diversos tecidos corporais (9). A proliferação e desenvolvimento de
células, em especial do sistema imune, o balanço acidobásico, o
transporte da amônia entre os tecidos, a doação de esqueletos de carbono
para a gliconeogênese, entre outros, são algumas das funções em que a
glutamina está envolvida (5,10).

Duas enzimas são responsáveis pela síntese de glutamina a partir do
glutamato ou por sua degradação, também em glutamato, a saber, a
glutamina sintetase e a glutaminase, respectivamente (4,9).

Mediante a catálise de conversão de glutamato em glutamina e da
utilização da amônia como fonte de nitrogênio e com consumo de
trifosfato de adenosina (ATP), a glutamina sintetase é a enzima-chave
para a síntese da glutamina e para a regulação do metabolismo celular do
nitrogênio. A glutamina sintetase é uma aminotransferase amplamente
distribuída entre os organismos vivos, sendo sua atividade fundamental
para a manutenção da vida de microrganismos e de animais (1,2). Os
fatores que regulam a atividade da glutamina sintetase são diversos,
tais como glicocorticóides (Cool, hormônios tireoidianos (1), hormônio do
crescimento e insulina (11). São atribuídas diferentes funções às ações
da glutamina sintetase (12). No cérebro, é utilizada como um importante
agente na redução da concentração de amônia, com consequente
desintoxicação e síntese de glutamina para nova síntese de glutamato
(9). No pulmão e no músculo esquelético, é responsável pela manutenção
da concentração de glutamina plasmática, sendo essencial em situações
patológicas ou de estresse (13). Nos rins, a glutamina sintetase é
imprescindível para o controle do metabolismo do nitrogênio e manutenção
do pH no organismo (12).

A glutaminase é a enzima que catalisa a hidrólise de glutamina em
glutamato e íon amônio. A hidrólise da glutamina representa o primeiro
passo na sua utilização a partir da síntese do glutamato. Outras reações
podem ocorrer principalmente na via que permite o consumo de glutamina
no ciclo do ácido tricarboxílico (14). A glutaminase está envolvida em
diversos processos metabólicos e pode ser encontrada em bactérias,
plantas e animais. Em mamíferos, a glutaminase pode ser encontrada sob
duas isoformas, uma (menos abundante) no fígado e outra nos demais
tecidos, tais como rins, cérebro, leucócitos e trato gastrintestinal.
Contudo, a sua forma mais ativa apresenta-se principalmente nas
mitocôndrias (12).

Indivíduos pesando aproximadamente 70kg apresentam cerca de 70-80g de
glutamina, distribuída por diversos tecidos corporais. No sangue, a
concentração de glutamina é em torno de 500-700µmol/L(15). Tanto a
concentração tecidual quanto a concentração sanguínea de glutamina podem
ser influenciadas pela atividade da glutamina sintetase ou da
glutaminase (16). Alguns tipos de células, tais como células do sistema
imune, rins e intestino, apresentam elevada atividade de glutaminase,
sendo assim considerados tecidos consumidores de glutamina (16). Por
outro lado, os músculos esqueléticos, os pulmões, o fígado, o cérebro e,
possivelmente, o tecido adiposo apresentam elevada atividade da enzima
glutamina sintetase, sendo assim considerados tecidos sintetizadores de
glutamina (4,17).

Quantitativamente, o principal tecido de síntese, estoque e liberação de
glutamina é o tecido muscular esquelético (16). A taxa de síntese de
glutamina no músculo esquelético humano é de aproximadamente 50mmol/h,
sendo maior do que qualquer outro aminoácido (4). A elevada capacidade
de síntese e liberação de glutamina, principalmente em situações em que
há aumento na sua demanda por outros órgãos e tecidos, confere ao
músculo esquelético um papel metabólico essencial na regulação da
glutaminemia. Eventos cirúrgicos, queimaduras, HIV, câncer e exercícios
físicos intensos e prolongados são algumas situações em que se observa
que o consumo de glutamina excede a capacidade de síntese corporal (18).

A predominância do tipo de fibra muscular pode influenciar a síntese de
glutamina. Fibras do tipo 1 ou oxidativas podem apresentar cerca de três
vezes mais estoques de glutamina em comparação com fibras do tipo 2 ou
glicolíticas (9). Essa diferença está relacionada com a maior atividade
da glutamina sintetase e a maior disponibilidade de ATP para a síntese
de glutamina em fibras oxidativas (12). Dependendo do músculo estudado,
quando a síntese de novo da glutamina é inibida, os estoques
intramusculares podem ser depletados em aproximadamente sete horas (14).

A síntese da glutamina no músculo esquelético, durante o estado pós-
absortivo, ocorre por meio da captação de glutamato, a partir da
circulação sanguínea. O glutamato é responsável por 40% da síntese de
glutamina (4). O catabolismo protéico leva à produção de glutamina de
forma direta e também à síntese de aminoácidos de cadeia ramificada
(ACR), glutamato, aspartato e asparagina (14,19). Os esqueletos de
carbono desses aminoácidos são utilizados para a síntese de novo de
glutamina (20).

Estudos em ratos demonstram que os ACR são transaminados, quase que
exclusivamente, com α-cetoglutarato para formar glutamato, que pode
fornecer seu grupo amino para formar piruvato, gerando alanina, ou
incorporar amônia livre, dando origem à glutamina (20) (figura 1).
Entretanto, os ACR não são completamente metabolizados, porque a
enzima-chave de controle da sua taxa de oxidação, a 2-oxoisovalerato
desidrogenase, apresenta-se quase totalmente na forma inativa no músculo
esquelético. Consequentemente, no tecido muscular, os ACR captados
inicialmente são utilizados como fornecedores de nitrogênio para a
formação de glutamina e alanina (21).



Hormônios como a insulina e os fatores de crescimento semelhantes à
insulina (IGFs) estimulam o transporte de glutamina para o meio
intracelular (18), ao passo que glicocorticóides estimulam a liberação
de glutamina para o meio extracelular (5,22). Considerando-se que o
gradiente transmembrana através da célula muscular é elevado para a
glutamina, sua difusão livre através da membrana celular é restrita
(23). Dessa forma, a glutamina necessita ser transportada de forma ativa
para o interior das células, por meio de um sistema dependente de sódio
(Na+), que resulta em gasto de ATP (22,24). Dentre todos os 20
aminoácidos, o transporte de glutamina através da membrana da célula
muscular é o mais veloz (10).

A glutamina, ao ser transportada para dentro da célula, promove,
concomitantemente, a absorção de água e a liberação de potássio (K+),
fato que aumenta o estado de hidratação e influencia o volume celular
(figura 1) (17, 23, 25). Embora ainda controverso, o aumento no volume
celular pode estimular a síntese protéica, o que é considerado como um
sinal anabólico (21, 24, 25).

Aspectos moleculares de ação da glutamina

Estudos têm demonstrado que a glutamina pode influenciar uma variedade
de funções e vias de sinalização celular (3). A modulação da expressão
de genes relacionados com a síntese e degradação de proteínas, a
proliferação celular e a ativação de vias envolvidas com a apoptose
celular estão entre os papéis exercidos pela glutamina mais estudados
(4, 5, 26, 27).

A glutamina pode modular a ativação de proteínas de estresse ou choque
térmico (heat schock proteins – HSPs), que estão relacionadas com a
resposta antiapoptótica celular (28). A ativação dessas proteínas
corresponde a uma das principais vias de sinalização que contribuem para
o aumento da capacidade da célula de sobreviver a alterações na sua
homeostasia em decorrência da exposição a agentes estressores, como
radiação ultravioleta (UV), calor, agentes infecciosos e espécies
reativas de oxigênio (ERO) (28).

As HSPs são famílias de polipeptídios agrupadas de acordo com seu peso
molecular, cujo principal fator indutor de sua expressão é o acúmulo de
proteínas desnaturadas no meio intracelular (28). Durante o ciclo
celular, as HSPs são encontradas em pequenas concentrações e em
diferentes compartimentos dentro das células. Quando uma célula é
exposta a algum tipo de estresse, são desencadeadas respostas
intracelulares, com o objetivo de proteger a célula de uma possível
lesão. Essas respostas têm início com a redução transitória da síntese
de proteínas consideradas não vitais, seguida por um aumento na
transcrição, tradução e expressão de genes específicos que levam ao
aumento da concentração das HSPs (29). Elas colaboram no reparo de
estruturas na molécula protéica e na identificação e remodelamento de
proteínas danificadas durante períodos de estresse. Além disso, as HSPs
auxiliam a síntese de novas proteínas, conservando e mantendo sua forma
estrutural (30). As HSPs são consideradas essenciais no processo de
recuperação celular. Evidências experimentais indicam que o aumento da
disponibilidade de glutamina às células pode aumentar a expressão das
HSPs, o que mantém a capacidade da célula em resistir a lesões (31).

Em um estudo realizado por Wischmeyer et al.(32) observa-se que, quando
adicionada em meio de cultura (2 a 10mmol/L), a glutamina foi eficaz no
aumento da proteção de células do epitélio intestinal (enterócitos) de
ratos submetidos a lesões do tipo oxidativo. Nesse estudo foi observado
aumento na concentração tanto do RNA mensageiro (RNAm) quanto da
expressão da HSP de 72kDa (HSP-72). Outros estudos confirmam o papel
exercido pela glutamina na expressão das HSPs, em especial da HSP de
70kDa (HSP-70) e HSP-72(27,33). Outrossim, o efeito da glutamina no
aumento da expressão das HSPs ocorre de maneira dose-dependente, pois
maiores concentrações são necessárias de acordo com a intensidade do
processo, fato que provavelmente está relacionado com a necessidade da
célula de aumentar sua proteção e, consequentemente, sobreviver em
condições de estresse (27).

Wischmeyer et al.(34,35) observaram aumento na expressão de outras HSPs,
tais como a HSP de 25kDa (HSP-25) e a de 27kDa (HSP-27). Tais
resultados foram verificados em diversos tecidos de animais que não
foram expostos a qualquer tipo de estresse e que receberam glutamina
(0,15 a 0,75g/kg de peso corporal) de forma parenteral. A administração
de glutamina, principalmente na quantidade de 0,75g/Kg de peso corporal,
reduziu a mortalidade de ratos expostos à endotoxemia, observando-se
aumento na expressão da HSP-27 e HSP-72.

Resultados de estudos, tanto in vitro quanto in vivo, evidenciam a
importância fisiológica da glutamina na expressão das HSPs,
principalmente no aumento da proteção da integridade celular. Os
mecanismos intracelulares e extracelulares que modulam a expressão
dessas proteínas, contudo, ainda necessitam ser mais investigados (30). A
expressão do fator transcricional de choque térmico-1 (HSF-1)
corresponde a um dos mecanismos reguladores da capacidade da célula em
ativar as HSPs em resposta a vários tipos de estresse (28,36).

O HSF-1 é um fator transcricional encontrado na sua forma inativa, ou
seja, não ligado ao DNA. A ativação do HSF-1 se dá por meio de uma
variedade de estímulos de estresse que desencadeiam a fosforilação de
monômeros latentes inativos desse fator transcricional, encontrados no
citoplasma da célula. Quando fosforilados, esses monômeros se combinam,
convertendo-se em um oligômero homotrímero (37). Os homotrímeros do
HSF-1, ao serem ativados, se translocam para o núcleo da célula e se
ligam a locais específicos da região promotora dos genes das HSPs,
denominados elementos de choque térmico (HSEs) (36). Esse mecanismo
permite que sinais específicos iniciem o processo de síntese,
transcrição e tradução do RNAm das HSPs (figura 2) (37).



Morrison et al.(38) verificaram que a glutamina pode modular o processo
de tradução e expressão tanto do HSF-1 quanto das HSPs. Os autores
observaram que o aumento da concentração de glutamina estimulou tanto o
número de ligações dos homotrímeros do HSF-1 aos HSEs, quanto a ligação
desses HSEs à região promotora dos genes das HSPs. Peng et al.(39)
observaram que, quando adicionada a células fibrobláticas embrionárias
de rato, a glutamina pode induzir aumento na expressão do HSF-1, o que
contribui para a integridade da membrana celular.

Evidências experimentais demonstram que a maior parte das funções
exercidas pelo aumento da expressão das HSPs está associada ao fato de
essas proteínas apresentarem atividade ATP-dependente, o que lhes
possibilita agir como proteínas chaperonas em nível molecular, atuando
na proteção contra diversos processos de apoptose celular (30). O
elemento fundamental dessa proteção é a ação inibitória realizada pelas
HSPs, por meio de sua ligação à rede de proteases essenciais à apoptose
celular, como a caspase-9 e o fator apoptótico ativador de proteases-1
(APAF-1) (28). Outro mecanismo envolvido está relacionado com a ação
isolada de algumas HSPs, principalmente a HSP-27, HSP-70 e HSP-72, na
redução da agregação de proteínas nucleares (28).

A inibição de vias de sinalização intracelular, tais como a da proteína
quinase ativada por mitógenos (MAPK) e do fator nuclear kappa B (NF-κB),
também tem sido indicada como mecanismo envolvido na proteção
antiapoptótica desempenhada pelas HSPs (26,40). Tanto a via da MAPK,
quanto a do NF-κB, ao ser inibidas, reduzem a ativação de sinais de
tradução e expressão de citocinas pró-inflamatórias, tais como a interleucina-1β (IL-1β) e o fator de necrose tumoral-α (TNF-α) (26).

De acordo com Wernerman e Hammarqvist (41), os mecanismos de ativação
tanto do NF-κB quanto da MAPK são dependentes do estado redox celular,
que pode ser alterado de acordo com a concentração intracelular de
glutationa (GSH). Por sua vez, a GSH é influenciada pela disponibilidade
de glutamina e glutamato intracelular (17,42). Assim, a ativação do
NF-κB e da MAPK pode ser modulada pela glutamina (26,42). Em animais
submetidos a estado de sepse, a maior disponibilidade de glutamina
atenuou a ativação do complexo NF-κB, por meio da inibição da degradação
de sua proteína inibidora, IκB-α, e inibiu a fosforilação e a ativação
da MAPK (26). Em outro estudo, Singleton e Wischmeyer (27) verificaram
que a administração de glutamina promoveu aumento de maneira
dose-dependente da expressão da HSP-70, inibindo a ativação do NF-κB e
das proteínas quinases que compõem a via da MAPK, sobretudo a c-JUN
NH2-terminal quinase (JNK).

Suplementações com glutamina

Estudos nos quais a L-glutamina foi administrada de forma parenteral
demonstraram que a maior oferta desse aminoácido às células pode atenuar
sua redução no plasma ou no meio intracelular ocorrido após eventos de
estresse metabólico ou enfermidades, tais como dengue (43), câncer (44),
HIV (45), queimaduras, cirurgias (44,46), entre outros. Nesses estudos,
a utilização de glutamina tem sido correlacionada com melhora na
recuperação dos pacientes (2, 46, 47).

Déchelotte et al.(48) verificaram que, no estado pós-absortivo, a
suplementação oral com glutamina em indivíduos saudáveis e sedentários
promoveu aumento na concentração de glutamina e glutamato plasmáticos.
Em atletas no estado de repouso, Castell e Newsholme (49) observaram que
a concentração plasmática de glutamina aumentou cerca de 30 minutos
após a ingestão oral de uma solução com L-glutamina (100mg/kg de peso
corporal), podendo retornar aos valores basais no decorrer de
aproximadamente duas horas.

Em indivíduos fisicamente ativos, Bowtell et al.(50) verificaram o
efeito da suplementação oral com L-glutamina sobre a glutaminemia e os
estoques de glicogênio muscular, após sessão de exercício intenso de
corrida. A suplementação (8g de glutamina em 330ml de água) aumentou a
concentração plasmática de glutamina durante o período de recuperação em
46%, o que permite inferir que uma substancial proporção de glutamina
administrada oralmente escapou da utilização por parte das células da
mucosa intestinal e da captação pelo rim e fígado.

Uma vez que células do sistema imune necessitam de glutamina para a
manutenção de suas funções e o exercício físico induz o aumento da
atividade dessas células, a correlação entre glutamina e sistema imune
tem sido estudada (2,6). Especula-se que a redução da disponibilidade de
glutamina, ocorrida após exercícios intensos e prolongados possa, de
alguma forma, estar envolvida no desenvolvimento de doenças, em
especial, as infecções do trato respiratório superior (ITRS) (19). A
suplementação com L-glutamina tem sido estudada como alternativa de
atenuar ou mesmo de reverter tais eventos induzidos pelo exercício
físico (tabela 1) (6,51). Castell et al.(52) investigaram o efeito da
suplementação com L-glutamina (5g em 330ml de água) logo após a
realização de uma maratona. A concentração de glutamina, alanina e ACR
manteve-se diminuída por até uma hora após a realização da maratona,
retornando aos valores pré-exercício
somente 16 horas mais tarde. Algumas citocinas, tais como a IL-2 e o
TNF-α, tiveram suas concentrações plasmáticas aumentadas por várias
horas após o exercício, o que denota um marcante estado inflamatório
induzido pelo exercício. A suplementação com L-glutamina, contudo, não
alterou nenhum dos parâmetros analisados.

Estudos relacionando glutamina com o volume celular demonstram que o seu
transporte para o meio intracelular promove elevação na captação de
sódio, alterando o volume da célula (59,60). O aumento no volume celular
pode ser considerado um sinal anabólico, uma vez que altera
favoravelmente o turnover protéico, promovendo a síntese protéica e
aumentando a disponibilidade de substratos para os diversos sistemas
envolvidos no processo de recuperação e reparação tecidual (43,61).
Varnier et al.(62) observaram que a administração parenteral de
glutamina, após exercício de alta intensidade, promoveu o aumento dos
estoques de glicogênio muscular, fato que pôde beneficiar a recuperação
da lesão induzida pelo exercício exaustivo.

O aumento do volume celular, contudo, não é o único mecanismo pelo qual a
glutamina pode influenciar outros sistemas envolvidos na homeostasia
celular, tais como o sistema antioxidante. No meio intracelular, a
glutamina pode sofrer hidrólise e elevar a disponibilidade de glutamato,
que é essencial para a síntese do principal antioxidante celular, a GSH
(17). Indivíduos após ser submetidos a eventos de estresse metabólico,
tais como cirurgias na região abdominal, foram suplementados, de forma
parenteral, durante três dias com L-glutamina. Os resultados mostraram
que a intervenção com L-glutamina atenuou a depleção muscular de GSH, o
que beneficiou a recuperação dos pacientes (46). A forma de
administração pode influenciar o metabolismo da glutamina, bem como a
síntese de GSH. De fato, Valencia et al.(47), quando investigaram os
efeitos da suplementação com L-glutamina, porém por via oral, em humanos
sedentários, não observaram aumento na concentração de GSH plasmática.
Os valores de glutamina e glutamato plasmáticos, contudo, se elevaram em
comparação com os do grupo controle do estudo.

A utilização de dipeptídeos de glutamina, tais como a
L-alanil-L-glutamina por via oral, representa uma alternativa não
invasiva de aumentar a disponibilidade de glutamina às células (43, 63,
64). De fato, a suplementação aguda oral com o dipeptídeo
(L-alanil-L-glutamina) em ratos sedentários foi mais eficiente em
promover o aumento da concentração plasmática de glutamina (após 30
minutos da intervenção nutricional) do que quando o aminoácido foi
ministrado na forma livre (63).

Em um estudo foi avaliado o efeito da suplementação crônica oral com
L-glutamina na forma livre ou como dipeptídeo sobre as concentrações
plasmática, muscular e hepática de glutamina em ratos sedentários (65).
Os resultados demonstraram que a suplementação crônica com L-glutamina
livre ou dipeptídeo não alterou a glutaminemia; o grupo suplementado com
o dipeptídeo, contudo, apresentou maior concentração de glutamina
muscular e hepática.

Em animais exercitados e submetidos a teste de exaustão, Rogero et
al.(64) observaram que a suplementação crônica com o dipeptídeo promoveu
maior concentração de glutamina nos músculos sóleo e gastrocnêmio
imediatamente após o teste de exaustão em relação aos grupos controle e
suplementado com L-glutamina livre. Esses estudos in vivo demonstraram
que a utilização de glutamina na forma de dipeptídeo pode vir a ser uma
interessante alternativa de intervenção nutricional para o fornecimento
de glutamina por via oral ao organismo, tanto em situações de repouso
quanto em situações de estresse metabólico, como em exercícios físicos
intensos e prolongados.

CONCLUSÃO

A glutamina está envolvida na síntese de ácidos nucléicos, nucleotídeos,
proteínas entre outros. Quando catalisada pela enzima glutaminase, a
glutamina dissocia-se em íon amônio e glutamato. Por meio do glutamato,
pode ocorrer a síntese de outros aminoácidos e de antioxidantes como a
GSH, principal antioxidante celular não enzimático. A realização de
exercícios físicos intensos e prolongados pode reduzir a disponibilidade
de glutamina às células, o que influencia tanto a concentração de GSH
quanto a expressão de HSPs. Uma das principais vias da síntese de HSPs
ocorre por meio da ativação do HSF-1. Estudos demonstram que a glutamina
pode modular a ativação do HSF-1, aumentando a expressão de HSPs, o que
resulta em maior proteção da célula e menor ativação de redes de
sinalização celular pró-apoptóticas.
A suplementação com o dipeptídeo L-alanil-L-glutamina pode representar
uma eficiente alternativa de aumentar a disponibilidade de glutamina ao
organismo.

Créditos:

“Glutamina: aspectos bioquímicos, metabólicos, moleculares e suplementação”

“Glutamine: biochemical, metabolic, molecular aspects and supplementation”

Vinicius Fernandes Cruzat; Éder Ricardo Petry; Julio Tirapegui

Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo

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abraço e bons treinos!!!


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